"Vanitas Vanitatum, et omnia vanitas" #Trecho 1
- caminhosdafe1987

- há 2 dias
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"Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade"
"Sendo o têrmo da vida limitado, não tem limite a nossa vaidade; porque dura mais do que nós mesmos, e se introduz nos aparatos últimos da morte. Que maior prova do que a fábrica de um elevado mausoléu? No silêncio de uma urna depositam os homens as suas memórias, para com a fé dos mármores, fazerem seus nomes imortais: querem que a suntuosidade do túmulo sirva de inspirar veneração, como se fôssem relíquias as suas cinzas, e que corra por conta dos jaspes a continuação do respeito. Que frívolo cuidado! Êsse triste resto daquilo que foi homem já parece um ídolo colocado em breve mas soberbo domicílio, que a vaidade edificou para habitação de uma cinza fria, e desta declara a inscrição o nome e a grandeza. A vaidade até se estende a enriquecer de adornos o mesmo pobre horror da sepultura".
Análise e reflexão contemporânea — Matias Aires
No trecho apresentado, Matias Aires expõe uma das faces mais desconcertantes da vaidade humana: o desejo de permanência mesmo diante da certeza da morte. Para ele, a vaidade não se encerra com a vida; ela a ultrapassa, tentando prolongar o nome, a imagem e a importância do indivíduo por meio de monumentos, inscrições e símbolos de grandeza.
O mausoléu suntuoso torna-se, na leitura de Aires, um último palco do ego. O que resta do homem — “uma cinza fria” — é envolto em mármore, ornamentos e palavras grandiosas, como se a matéria pudesse sustentar a memória e como se o respeito pudesse ser garantido pela imponência da forma. A crítica é clara: trata-se de um cuidado frívolo, pois confunde eternidade com aparência.
A vaidade hoje: novos mausoléus, a mesma ilusão
Se no século XVIII a vaidade se erguia em jaspes e túmulos, hoje ela se manifesta de outras formas. Construímos mausoléus digitais: perfis, legados de imagem, narrativas cuidadosamente editadas para sobreviver ao tempo e ao esquecimento. A busca por relevância, engajamento e reconhecimento muitas vezes carrega o mesmo impulso denunciado por Matias Aires — o medo de desaparecer sem deixar vestígios.
A pergunta que atravessa os séculos permanece atual: o que realmente permanece quando a aparência já não pode falar por nós?
Ao desmontar a vaidade que tenta adornar até a morte, Matias Aires nos conduz a uma reflexão essencial: a verdadeira dignidade não se sustenta na grandiosidade visível, mas naquilo que não precisa ser esculpido, exibido ou eternizado à força. A vaidade quer monumentos; a verdade, não.
Este texto nos convida a revisar onde estamos depositando nosso esforço: na construção de imagens duráveis ou na formação de um sentido que não depende de mármore, nomes ou aplausos.

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REFERÊNCIAS:
AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Lisboa: Oficina de Francisco Borges de Sousa, 1752.

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